MEU PAI, DR.RIZZO
O tempo, este mesmo que nos ajuda a apagar
as dores do sofrimento, que nos permite esquecer os momentos difíceis
de um tempo distante, ele também retira de nós as lembranças
felizes que gostaríamos de manter para sempre acesas em nossa mente.
Ainda bem que podemos contar com com os fragmentos que talvez nunca
se apaguem; que sigam conosco até o fim de nossa vida. Podemos
também nos valer, em alguns instantes, das fotos guardadas, talvez
esmaecidas, mas que nos permitem juntar pedaços e formar uma
lembrança mais consistente. Estou dizendo tais palavras na tentativa
de justificar, talvez para mim mesma, a descrição que passo a fazer
agora. Não tenho muitos dados concretos, como disse, em algumas
situações um papel amarelado pelo tempo e algumas palavras
escritas. Uma receita de bolo, de pudim com calda de ameixa de D.
Rafaella, minha madrinha. Uma prescrição de medicamento, um bloco
de notas do consultório médico do Empório Industrial do Norte ou
algumas fotos que selecionei e pensei em compor um grande álbum de
recordações inestimáveis. Ele era um homem aparentemente calmo,
sem muitas palavras. Gostava de ler e tinha sempre embaixo do
travesseiro algum livro ou revista médica: Rassegna Médica,
Ciências Físicas e Biológicas, Matemática. Sim, ele era assim
mesmo, um polivalente. Não somente naquilo que lia, mas no que
ensinava ou no que fazia. Alfabetizou os tres filhos e lhes ministrou
todo o conteúdo do então Ensino Primário, até o curso de
Admissão ao Ginásio. Dava aulas à noite para algumas crianças ou
adolescentes, conhecidos do seu convívio no trabalho, no desempenho
da profissão que exercia de médico que era. Em casa, sempre tinha
algo a fazer: uma macarronada no domingo, quando ele mesmo fazia a
massa do macarrão. Pintar as paredes da casa, consertar torneiras ou
vazamentos, lixar e pintar os tacos do chão da casa que formavam
desenhos geométricos em preto e amarelo claro. Preparava a madeira
recortada, invernizava, para construir móveis: mesas, caixa para a
vitrola e outros objetos mais. Era sempre assim que eu via meu pai:
um homem de pijamas, de meias nos pés, com um leve sorriso no rosto.
Movimenta-se do quarto em que dormia para o quarto onde guardava
inúmeros objetos: Muitos livros, material de vidro de laboratório,
pois tinha a intenção de abrir uma farmácia com um seu amigo que,
pelo que pude entender com meus recursos de criança observadora, não
lhe foi tão amigo assim. Mas naquele quarto, aquele misterioso e
enorme quarto aos meus ollhos, eram guardadas receitas, fórmulas,
balança de precisão (que ainda trago comigo) micróscópio,
lâminas, lamínulas, tubos de ensaio aos montes, estantes com uma
diversidade enorme de material com diferentes finalidades. Era ali
também, naquele espaço, que escondia de mim as geringonças que eu
gostava de fazer como por exemplo carrinho de rolimã, ganchos para
conduzir uma roda de metal, brinquedo muito usado pelos meninos da
rua em que morávamos. Sem contar com as inúmeras pipas (caxalebu)
que eu mesma construia para elevar aos céus quando conseguia pular o
muro, ganhar a rua e me confundir com os meninos que minha mãe
chamava de "moleques" em tom pejorativo. Não era difícil
encontrar meu pai, Dr. Rizzo, sempre com uma máquina fotográfica na
mão. Registrava sempre os momentos especiais da nossa infancia, mas
tampém momentos do nosso cotidiano. Ele gostava muito mesmo de
fotografar e de filmar, pois tinha uma filmadora, 16 mm, para a qual
estava sempre indo à "cidade" (comércio) para comprar
peças ou mesmo filme. Nos acostumamos a ver nossas fotos sempre
privilegiando locais agradáveis da casa, onde passávamos a maior
parte do nosso tempo em família. Frequentemente à noite, mesmo
durante os dias de semana, ele projetava filmes que ele mesmo
produzia ou filmes de "Cawboy" que adqueria em lojas de
material fotográfico. Sempre convidava algumas pessoas mais
próximas, vizinhos, ou crianças da nossa idade e do nosso
convívio, para nos acompanhar naquelas noites de cinema ao ar
livre, quando não estava chovendo.
Também me acostumei a ouvir músicas italianas, ou
valsas e música clássica (algumas selecionadas) dos discos 78
rotações que ele colecionava. Era sempre muito prazeiroso ouvir
aquelas canções, em sua maior parte românticas (Vicente Celestino)
e valsas Vienenses que ele gostava de ouvir.
Meu pai foi realmente um homem muito especial mesmo, uma pessoa com
uma certa expressão de silêncio na face, mas que realizava muitas
coisas que somente pessoas de bem com a vida, muito criativas e
competentes, poderiam fazer. Unia
seu lado profissional e de pai com muita coerencia e dedicação, mas
não demonstrava esforço ou cansaço, não pelo menos na fase de
minha infância e nos primeiros anos de minha adolescencia.
Aqui estamos nós: eu, Antonieta,
(Rosa) de saia branca, minha irmã Augusta de mãos dada comigo, meu
pai entre nós duas, minha mãe D. Antonieta Rizzo ao lado do seu
irmão Coriolano Aberto, e o filho de um amigo-irmão do meu pai,
Olivaldo.
Meu
pai gostava muito de usar apalavra 'sujeito' em lugar de individuo.
Podemos então dizer: ele era um sujeito precavido, cauteloso,
pensativo. Gostava de ficar momentos longos sozinho, absoto, como se
estivesse bem longe dali, longe do lugar onde realmente estava. Com
isso, provocava minha mãe que insistia em chamá-lo à realidade,
sempre querendo solicitar-lhe uma tomada de posição, uma ação que
o desafiasse, mesmo que fosse um simpçles afazer cotidiano, da
cozinha, por exemplo. Ela sabia que ele apreciava bastante as comidas
que ela fazia, então nesses momentos, sempre havia algum ingrediente
a ser comprado, algo faltava na cozinha, e sempre disposto, Dr. Rizzo
se preparava para sair um pouco mais cedo e ir até a Dispensa Pery
onde fazia as encomendas, mandava levar em casa, e aproveitava para
restabelecer alguma conversa com os espanhís da D.Pery. Lembro dos
atendentes, Antonio, um espanhol bem bonito, de meia idade, que nunca
esqueci. Tinha também o Pullens, não sei se assim se escreve, mas
era filho do do dono da Pery queagora não me ocorre o nome, mais
adiante, quando as lembranças estiverem mais vivas, direi seu nome,
que de fato não esqueci. Então,falando na Pery, meu pai dispensava
seus cuidados médicos a todos que ali trabalhavam desde o dono e sua
família até o mais simples operário do estabelecimento. Tudo
grátis, sem nenhum custo para os pacientes, aliás, paciente era o
meu pai, que ouvia os longos relatos para depois prescrever os
medicamentos certeiros, sem nenhum exame complementar, que na época
era bastante difícil. Lembro-me que certa vez, meu pai fez um
diagnóstico de primeira na filha mais velha do Sr. Appolinário
Gonzalez (ele, o dono da Pery!) Ela estava com febre muito alta,
muito debilitada e com outos sintomas. Estava com difteria, uma
doença que se não cuidada de pronto leva a óbito. Meu pai não
vacilou: dispensou seus cuidados médicos e salvou a moça! Neste
ano, a cesta de Natal que nos era enviada todos os anos, quase um
marco do Natal para nós, os filhos, veio bastante genenerosa,
repleta de produtos importados da época natalina, para nossa alegria
e deleite: nozes, amêndoas, ameixas, biscoitos finos, queijo tipo
reino, pães de diferentes sabores e tantos iutros itens
inesquecíveis. Sei que da cesta, eu adorava o pão de Natal, que
tinha um sabor muito especial, repleto de passas e eu gostava de
saboreá-lo junto com uma xícara de café com leite. Uma delícia!
Dessa forma, minha mãe jamais ia ao armazém, tudo era comprado por
Dr. Rizzo que muitas vezes me levava com ele. No caminho eu ouvia
sempre de muitas pessoas que o cumprimentavam: 'olha filha de Dr.
Rizzo! Como é bonita!' E era mesmo, uma garota de rosto muito
privilegiado! Ele ficava muito feliz em dizer meu nome e reforçar
que era sua filha. Olha eu vestida de Maria Antonieta na foto abaixo
e com menos idade, sentada na gangorra, que meu pai instalara lá no
quintal. Momentos bons os dos briquedos e brincadeiras no quintal. Um
mundo à parte, decorado pelos vários objetos de nossas brincadeiras
de criança, embaladas pelos sonhos e por nossa criatividade em
construir espaços mágicos que nos absorvia durante muitas horas do
dia. Mas, sonhos à parte, meu pai sempre nos trazia de volta à
realidade e lembrava a Nieta, como ele chamava minha mãe, que estava
na hora de estudar, cumprir tarefas ou tomar banho. Sempre era minha
mãe que fazia as interferências diretas, quer para cumprimento de
tarefas de estudo ou para nos fazer realizar outras atividades
diárias. Ou seja, verdade seja dita, meu pai falava minha mãe
cumpria. Meu pai cumpria horário ede trabalho no consultório:
mas pelo que pude entender, ele não gostava de longos horários fora
de casa, ali, no seu mundo particular vivia bem e feliz. É o que eu
acho. Esta palavra, consultório,
me lembra sempre o médico estudioso e cumpridor do seu trabalho. Na
agenda diária de Dr. Rizzo Havia claramente um generos tempo a ser
dedicado à família, a suas leituras, ao conserto de utilidades
domésticas ou eletrônicos que aprentavam defeito. Ele abria o rádio
por exemplo, e o dessecava, como se for um corpo de sua banca de
estudo em medicina. Selecionava as peças defeituosas e em alguma
tarde que fosse possível 'descia' à 'cidade' para comprar a peça e
repor no aparelho. Um brinco, a perfeição do seu trabalho, pois o
aparelho sempre voltava a funcionar! Quero deixar desde já aqui
registrado, que fui uma criança feliz! Talvez, eu acho, que a minha
infância valeu por toda minha vida, mesmo que não tenha frequentado
a Escola formal até meus treze anos. Não é facil aceitar isso para
mim até hoje: não ter ido à escola, mas que fui feliz isso fui. Se
me perguntassem naquele momento sobre a possibilidade de começar a
frequentar a escola, tenho certeza que não iria querer. Não
precisava: brincava, estudava, aprendia a bordar, a costurar pequenas
roupas para as bonecas, pregar um botão, fazer ponto de cruz. Tenho
meu modelo em tecido próprio guardado até hoje e o último que
elaborei foram duas grandes letras maiúsculas: JG. Depois é que vem
os traumas: a precariedade na socialização, a necessidade do
convívio com outas crianças e outras questões mais. Ainda
pensando em como Dr. Rizzo era, me lembro que aos sábados ele sempre
fazia o percurso de barco, da Ribeira até Plataforma, um bairro com
moradores pobres, e lá atendia de graça àquela população. Levava
medicamentos, amostras grátis, e assim fazia sua jornada quase em
silêncio. Só sabíamos nós, seus filhos, sua esposa e talvez algum
amigo muito próximo. Não sei se cobrava nem mesmo dos que tinham
mais condições financeiras para pagar, pois atendia a muitas
pessoas e suas famílias de graça, mesmo que este trabalho fosse o
seu sustento. Isto eu não esqueço: meu pai era um homem muito
generoso. Algum tempo bem mais tarde, quando ele já havia falecido e
eu já estava ensinando na Universidade Federal, uma funcionaria se
aproximou de mim e disse: "Antonieta, conheci seu pai, Dr.
Rizzo, ele foi a pessoa mais generosa que já conheci. Queria lhe
dizer isso." Fiquei muito feliz naquele momento e agradeci a ela
por ter sido tão sincera. Outras pessoas conheci, neste mesmo
ambiente de trabalho, e todas elas falaram do mesmo modo de meu pai.