segunda-feira, 15 de setembro de 2014

DR. RIZZO: MEU PAI




MEU PAI, DR.RIZZO

O tempo, este mesmo que nos ajuda a apagar as dores do sofrimento, que nos permite esquecer os momentos difíceis de um tempo distante, ele também retira de nós as lembranças felizes que gostaríamos de manter para sempre acesas em nossa mente. Ainda bem que podemos contar com com os fragmentos que talvez nunca se apaguem; que sigam conosco até o fim de nossa vida. Podemos também nos valer, em alguns instantes, das fotos guardadas, talvez esmaecidas, mas que nos permitem juntar pedaços e formar uma lembrança mais consistente. Estou dizendo tais palavras na tentativa de justificar, talvez para mim mesma, a descrição que passo a fazer agora. Não tenho muitos dados concretos, como disse, em algumas situações um papel amarelado pelo tempo e algumas palavras escritas. Uma receita de bolo, de pudim com calda de ameixa de D. Rafaella, minha madrinha. Uma prescrição de medicamento, um bloco de notas do consultório médico do Empório Industrial do Norte ou algumas fotos que selecionei e pensei em compor um grande álbum de recordações inestimáveis. Ele era um homem aparentemente calmo, sem muitas palavras. Gostava de ler e tinha sempre embaixo do travesseiro algum livro ou revista médica: Rassegna Médica, Ciências Físicas e Biológicas, Matemática. Sim, ele era assim mesmo, um polivalente. Não somente naquilo que lia, mas no que ensinava ou no que fazia. Alfabetizou os tres filhos e lhes ministrou todo o conteúdo do então Ensino Primário, até o curso de Admissão ao Ginásio. Dava aulas à noite para algumas crianças ou adolescentes, conhecidos do seu convívio no trabalho, no desempenho da profissão que exercia de médico que era. Em casa, sempre tinha algo a fazer: uma macarronada no domingo, quando ele mesmo fazia a massa do macarrão. Pintar as paredes da casa, consertar torneiras ou vazamentos, lixar e pintar os tacos do chão da casa que formavam desenhos geométricos em preto e amarelo claro. Preparava a madeira recortada, invernizava, para construir móveis: mesas, caixa para a vitrola e outros objetos mais. Era sempre assim que eu via meu pai: um homem de pijamas, de meias nos pés, com um leve sorriso no rosto. Movimenta-se do quarto em que dormia para o quarto onde guardava inúmeros objetos: Muitos livros, material de vidro de laboratório, pois tinha a intenção de abrir uma farmácia com um seu amigo que, pelo que pude entender com meus recursos de criança observadora, não lhe foi tão amigo assim. Mas naquele quarto, aquele misterioso e enorme quarto aos meus ollhos, eram guardadas receitas, fórmulas, balança de precisão (que ainda trago comigo) micróscópio, lâminas, lamínulas, tubos de ensaio aos montes, estantes com uma diversidade enorme de material com diferentes finalidades. Era ali também, naquele espaço, que escondia de mim as geringonças que eu gostava de fazer como por exemplo carrinho de rolimã, ganchos para conduzir uma roda de metal, brinquedo muito usado pelos meninos da rua em que morávamos. Sem contar com as inúmeras pipas (caxalebu) que eu mesma construia para elevar aos céus quando conseguia pular o muro, ganhar a rua e me confundir com os meninos que minha mãe chamava de "moleques" em tom pejorativo. Não era difícil encontrar meu pai, Dr. Rizzo, sempre com uma máquina fotográfica na mão. Registrava sempre os momentos especiais da nossa infancia, mas tampém momentos do nosso cotidiano. Ele gostava muito mesmo de fotografar e de filmar, pois tinha uma filmadora, 16 mm, para a qual estava sempre indo à "cidade" (comércio) para comprar peças ou mesmo filme. Nos acostumamos a ver nossas fotos sempre privilegiando locais agradáveis da casa, onde passávamos a maior parte do nosso tempo em família. Frequentemente à noite, mesmo durante os dias de semana, ele projetava filmes que ele mesmo produzia ou filmes de "Cawboy" que adqueria em lojas de material fotográfico. Sempre convidava algumas pessoas mais próximas, vizinhos, ou crianças da nossa idade e do nosso convívio, para nos acompanhar naquelas noites de cinema ao ar livre, quando não estava chovendo.

Também me acostumei a ouvir músicas italianas, ou valsas e música clássica (algumas selecionadas) dos discos 78 rotações que ele colecionava. Era sempre muito prazeiroso ouvir aquelas canções, em sua maior parte românticas (Vicente Celestino) e valsas Vienenses que ele gostava de ouvir. Meu pai foi realmente um homem muito especial mesmo, uma pessoa com uma certa expressão de silêncio na face, mas que realizava muitas coisas que somente pessoas de bem com a vida, muito criativas e competentes, poderiam fazer. Unia seu lado profissional e de pai com muita coerencia e dedicação, mas não demonstrava esforço ou cansaço, não pelo menos na fase de minha infância e nos primeiros anos de minha adolescencia.


Rosa e Augusta suas duas filhas.

 

Rosa: pequena em casa na gangorra.


D.Antonieta, minha mãe.Meu pai. Eu e Augusta (blusa branca)

Aqui estamos nós: eu, Antonieta, (Rosa) de saia branca, minha irmã Augusta de mãos dada comigo, meu pai entre nós duas, minha mãe D. Antonieta Rizzo ao lado do seu irmão Coriolano Aberto, e o filho de um amigo-irmão do meu pai, Olivaldo.

Meu pai gostava muito de usar apalavra 'sujeito' em lugar de individuo. Podemos então dizer: ele era um sujeito precavido, cauteloso, pensativo. Gostava de ficar momentos longos sozinho, absorto, como se estivesse bem longe dali, do lugar onde realmente estava. Com isso, provocava minha mãe que insistia em chamá-lo à realidade, sempre querendo solicitar-lhe uma tomada de posição, uma ação que o desafiasse, mesmo que fosse um simples afazer cotidiano, da cozinha, por exemplo. Ela sabia que ele apreciava bastante as comidas que  fazia, então nesses momentos, sempre havia algum ingrediente a ser comprado, algo faltava na cozinha, e sempre disposto, Dr. Rizzo se preparava para sair um pouco mais cedo e ir até a Dispensa Pery onde fazia as encomendas, mandava levar em casa, e aproveitava para restabelecer alguma conversa com os espanhóis da Dispensa Pery. Lembro dos atendentes, Antonio, um espanhol bem bonito, de meia idade, que nunca esqueci. Tinha também o Pullens, não sei se assim se escreve, mas era filho do do dono da Pery que agora não me ocorre o nome, mais adiante, quando as lembranças estiverem mais vivas, direi seu nome, que de fato não esqueci. Então,falando na Pery, meu pai dispensava seus cuidados médicos a todos que ali trabalhavam desde o dono e sua família até o mais simples operário do estabelecimento. Tudo grátis, sem nenhum custo para os pacientes, aliás, paciente era o meu pai, que ouvia os longos relatos para depois prescrever os medicamentos certeiros, sem nenhum exame complementar, que na época era bastante difícil. Lembro-me que certa vez, meu pai fez um diagnóstico de primeira na filha mais velha do Sr. Appolinário Gonzalez (ele, o dono da Pery!) Ela estava com febre muito alta, muito debilitada e com outos sintomas. Estava com difteria, uma doença que se não cuidada de pronto leva a óbito. Meu pai não vacilou: dispensou seus cuidados médicos e salvou a moça! Neste ano, a cesta de Natal que nos era enviada todos os anos, quase um marco do Natal para nós, os filhos, veio bastante genenerosa, repleta de produtos importados da época natalina, para nossa alegria e deleite: nozes, amêndoas, ameixas, biscoitos finos, queijo tipo reino, pães de diferentes sabores e tantos iutros itens inesquecíveis. Sei que da cesta, eu adorava o pão de Natal, que tinha um sabor muito especial, repleto de passas e eu gostava de saboreá-lo junto com uma xícara de café com leite. Uma delícia! Dessa forma, minha mãe jamais ia ao armazém, tudo era comprado por Dr. Rizzo que muitas vezes me levava com ele. No caminho eu ouvia sempre de muitas pessoas que o cumprimentavam: 'olha filha de Dr. Rizzo! Como é bonita!' E era mesmo, uma garota de rosto muito privilegiado! Ele ficava muito feliz em dizer meu nome e reforçar que era sua filha. Olha eu vestida de Maria Antonieta na foto abaixo e com menos idade, sentada na gangorra, que meu pai instalara lá no quintal. Momentos bons os dos briquedos e brincadeiras no quintal. Um mundo à parte, decorado pelos vários objetos de nossas brincadeiras de criança, embaladas pelos sonhos e por nossa criatividade em construir espaços mágicos que nos absorvia durante muitas horas do dia. Mas, sonhos à parte, meu pai sempre nos trazia de volta à realidade e lembrava a Nieta, como ele chamava minha mãe, que estava na hora de estudar, cumprir tarefas ou tomar banho. Sempre era minha mãe que fazia as interferências diretas, quer para cumprimento de tarefas de estudo ou para nos fazer realizar outras atividades diárias. Ou seja, verdade seja dita, meu pai falava minha mãe cumpria. Meu pai cumpria horário ede trabalho no consultório: mas pelo que pude entender, ele não gostava de longos horários fora de casa, ali, no seu mundo particular vivia bem e feliz. É o que eu acho. Esta palavra, consultório, me lembra sempre o médico estudioso e cumpridor do seu trabalho. Na agenda diária de Dr. Rizzo Havia claramente um generoso tempo a ser dedicado à família, a suas leituras, ao conserto de utilidades domésticas ou eletrônicos que aprentavam defeito. Ele abria o rádio por exemplo, e o dessecava, como se for um corpo de sua banca de estudo em medicina. Selecionava as peças defeituosas e em alguma tarde que fosse possível 'descia' à 'cidade' para comprar a peça e repor no aparelho. Um brinco, a perfeição do seu trabalho, pois o aparelho sempre voltava a funcionar! Quero deixar desde já aqui registrado, que fui uma criança feliz!  Eu acho, que a minha infância valeu por toda minha vida, mesmo que não tenha frequentado a Escola formal até meus treze anos. Não é facil aceitar isso para mim até hoje: não ter ido à escola; mas que fui feliz isso fui. Se me perguntassem naquele momento sobre a possibilidade de começar a frequentar a escola, tenho certeza que não iria querer. Não precisava: brincava, estudava, aprendia a bordar, a costurar pequenas roupas para as bonecas, pregar um botão, fazer ponto de cruz. Tenho meu modelo em tecido próprio guardado até hoje e o último que elaborei foram duas grandes letras maiúsculas: JG. Depois é que vem os traumas: a pouca  socialização, a necessidade do convívio com outras crianças e outras questões mais. Ainda pensando em como Dr. Rizzo era, me lembro que aos sábados ele sempre fazia o percurso de barco, da Ribeira até Plataforma, um bairro com moradores pobres, e lá atendia de graça àquela população. Levava medicamentos, amostras grátis, e assim fazia sua jornada quase em silêncio. Só sabíamos nós, seus filhos, sua esposa e talvez algum amigo muito próximo. Não sei se cobrava nem mesmo dos que tinham mais condições financeiras para pagar, pois atendia a muitas pessoas e suas famílias de graça, mesmo que este trabalho fosse o seu sustento. Isto eu não esqueço: meu pai era um homem muito generoso. Algum tempo bem mais tarde, quando ele já havia falecido e eu já estava ensinando na Universidade Federal, uma funcionaria se aproximou de mim e disse: "Antonieta, conheci seu pai, Dr. Rizzo, ele foi a pessoa mais generosa que já conheci. Queria lhe dizer isso." Fiquei muito feliz naquele momento e agradeci a ela por ter sido tão sincera. Outras pessoas conheci, neste mesmo ambiente de trabalho, e todas elas falaram do mesmo modo de meu pai.

Um comentário:

  1. Logo estarei postando outras lembranças que tenho guardadas em minha memória e que quero registrar antes que o tempo e a idade me façam esquecer.

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